Uma indústria que cresceu junto com Blumenau
Em uma das regiões mais tradicionais de Blumenau, entre construções históricas, bairros residenciais e o desenvolvimento urbano da Itoupava Seca, funciona uma indústria cuja trajetória se confunde com a própria industrialização da cidade.
A Electro Aço Altona nasceu de uma pequena sociedade formada por dois imigrantes alemães e tornou-se uma das empresas metalúrgicas mais reconhecidas de Santa Catarina.
A companhia foi fundada oficialmente em 8 de março de 1924, inicialmente com o nome Auerbach & Werner. O empreendimento começou como uma pequena fundição e oficina de reparos mecânicos, fabricando utensílios domésticos, implementos agrícolas, balanças, panelas, moedores de carne, sinos e peças para máquinas.
Ao longo das décadas, a empresa deixou de produzir somente objetos utilizados no cotidiano. A antiga oficina passou a fabricar componentes industriais de grande porte e elevada complexidade destinados a locomotivas, turbinas, equipamentos de mineração, plataformas de petróleo, usinas de energia, embarcações e outros projetos estratégicos.
A história da Altona representa um dos exemplos mais emblemáticos da transformação de Blumenau: de uma colônia agrícola construída às margens do Rio Itajaí-Açu para um dos principais polos industriais e tecnológicos do Sul do Brasil.
A chegada de Paul Werner a Blumenau
A origem da Altona está diretamente ligada ao engenheiro alemão Paul Werner. Formado pela Escola de Dresden, na Alemanha, Werner chegou a Blumenau em 1923, contratado pela Prefeitura para instalar uma central telefônica no município.
De acordo com o material histórico produzido para o centenário da companhia, o engenheiro concluiu o trabalho antes do prazo estabelecido e decidiu permanecer na cidade.
Pouco tempo depois, conheceu o ferreiro Ernst Auerbach, que mantinha uma oficina no então chamado bairro Altona, região que atualmente integra a Itoupava Seca.
A união entre o conhecimento técnico de Werner e a experiência prática de Auerbach resultou na criação da Auerbach & Werner, em 8 de março de 1924.
O empreendimento nasceu em um período no qual Blumenau começava a ampliar sua atividade industrial. A economia regional ainda era fortemente baseada na agricultura, no comércio local e em pequenas oficinas familiares. Máquinas, peças e equipamentos frequentemente precisavam ser importados ou reparados artesanalmente.
Nesse cenário, uma oficina capaz de consertar motores, trabalhar com equipamentos elétricos e fabricar componentes metálicos encontrou espaço para crescer.
Os primeiros produtos fabricados pela empresa
Nos primeiros anos, a produção estava distante dos grandes componentes industriais que caracterizariam a Altona no futuro. A oficina fabricava objetos simples, mas necessários para as famílias, agricultores e pequenos empreendimentos da região.
Entre os primeiros produtos estavam:
- Panelas;
- Balanças;
- Moedores de carne;
- Sinos;
- Ferramentas domésticas;
- Implementos agrícolas;
- Peças para motores;
- Componentes para máquinas.
Além da fabricação, a empresa realizava reparos em motores e equipamentos elétricos. Essa combinação permitiu que a oficina atendesse às necessidades práticas de uma Blumenau que começava a se modernizar, mas ainda possuía acesso limitado a peças industriais.
O crescimento do negócio exigiu investimentos em equipamentos, técnicas de produção e mão de obra especializada.
O forno elétrico que mudou a história da Altona
Um dos momentos mais importantes da trajetória da empresa ocorreu com a aquisição de um forno elétrico de fusão a arco. A tecnologia possibilitou que a fábrica começasse a produzir peças em aço fundido, ampliando significativamente sua capacidade industrial.
Com esse investimento, a empresa tornou-se a primeira fundição de aço de Santa Catarina e uma das primeiras do Brasil.
Em 1933, passou a utilizar o nome Electro Aço Altona S.A., consolidando uma nova fase de suas operações.
O nome “Altona” foi preservado como referência ao bairro onde a oficina havia iniciado suas atividades. A denominação acompanhou a companhia durante todo o processo de expansão e se tornou conhecida em diferentes mercados internacionais.
O domínio da fundição de aço permitiu fabricar peças mais resistentes e complexas, utilizadas em máquinas, sistemas de transporte, geração de energia e equipamentos pesados.
Como funciona uma fundição de aço
A fundição é um processo industrial no qual o metal é aquecido até atingir o estado líquido. Em seguida, o material é colocado em moldes desenvolvidos conforme o formato e as especificações da peça que será produzida.
Depois do resfriamento, o componente pode passar por diferentes etapas:
- Retirada do molde;
- Tratamentos térmicos;
- Soldagem;
- Acabamento;
- Inspeções;
- Testes de qualidade;
- Usinagem.
Na usinagem, máquinas de alta precisão removem partes do material para que a peça alcance as medidas, os encaixes e o acabamento exigidos pelo projeto.
Esse processo permite fabricar desde componentes menores até peças industriais com várias toneladas, projetadas para suportar pressão, impacto, temperaturas elevadas e condições severas de operação.
O crescimento da fábrica na Itoupava Seca
Com o avanço da produção, a estrutura industrial da Altona foi ampliada gradualmente. A empresa permaneceu instalada na região da Itoupava Seca, acompanhando a urbanização do bairro e o crescimento de Blumenau.
Na década de 1960, a companhia já havia alcançado aproximadamente 450 colaboradores. A necessidade de atender projetos maiores levou à expansão do parque fabril e à aquisição de novos fornos, máquinas e equipamentos.
O complexo passou a reunir diferentes etapas do processo produtivo, incluindo:
- Engenharia;
- Moldagem;
- Fusão;
- Tratamento térmico;
- Soldagem;
- Acabamento;
- Inspeção;
- Usinagem.
Essa estrutura integrada permite acompanhar a fabricação de uma peça desde a análise inicial do projeto até a entrega do componente finalizado.
Atualmente, a companhia apresenta sua operação como uma solução completa, reunindo fundição, usinagem, fabricação, soldagem, tratamentos especiais e inspeções dentro da mesma cadeia industrial.
Bernardo Werner e a expansão da companhia
A continuidade da Altona também esteve ligada à atuação de Bernardo Wolfgang Werner, filho de Paul Werner. Nascido em 1927, Bernardo iniciou sua trajetória na empresa aos 19 anos.
Antes de assumir funções de liderança, passou por diferentes setores da produção. A experiência permitiu que conhecesse o funcionamento da fábrica e participasse diretamente de uma fase de expansão industrial.
Bernardo Werner também teve atuação relevante fora da companhia. Foi vereador em Blumenau e presidiu a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, a FIESC, durante cinco mandatos, entre 1971 e 1986.
Sua trajetória esteve relacionada a iniciativas voltadas ao desenvolvimento econômico e educacional da região. O material histórico da Altona destaca sua participação em movimentos que contribuíram para o fortalecimento da indústria catarinense e para a criação da atual Universidade Regional de Blumenau, a FURB.
A relação entre indústria, educação técnica e formação profissional foi decisiva para o crescimento econômico de Blumenau. Empresas como a Altona passaram a demandar engenheiros, técnicos, operadores, desenhistas, profissionais de qualidade e especialistas em processos industriais.
De utensílios domésticos a componentes de alta complexidade
A transformação mais significativa da Altona ocorreu quando a empresa passou a atuar em mercados que exigem peças de alto desempenho e elevado rigor técnico.
O portfólio da companhia está relacionado a segmentos como:
- Transporte ferroviário e metroviário;
- Máquinas agrícolas;
- Petróleo e gás;
- Geração de energia;
- Indústria de defesa;
- Construção pesada;
- Mineração;
- Dragagem;
- Indústria naval;
- Bombas e válvulas;
- Compressores;
- Turbinas;
- Equipamentos industriais.
Em muitos desses mercados, uma peça fundida não pode apresentar falhas. Um componente instalado em uma turbina, locomotiva, plataforma de petróleo ou equipamento de mineração pode operar sob pressão extrema, temperaturas elevadas, cargas intensas e funcionamento contínuo.
Por isso, o processo produtivo envolve engenharia, controle metalúrgico, rastreabilidade, tratamentos térmicos e ensaios destinados a identificar possíveis defeitos internos.
Peças produzidas em Blumenau chegaram ao mercado internacional
A atuação da Altona ultrapassou as fronteiras de Santa Catarina e do Brasil. A empresa passou a fornecer componentes para clientes de diferentes países, transformando Blumenau em ponto de origem de peças utilizadas em grandes projetos internacionais.
A companhia informa exportar para mais de 25 países e manter estruturas comerciais voltadas ao atendimento de mercados como Europa e América do Norte.
A expansão internacional demonstra como uma fábrica instalada no interior de Santa Catarina passou a integrar cadeias globais de engenharia, infraestrutura, energia, transporte e indústria pesada.
Mais de um século após sua fundação, a Altona permanece sediada na Rua Engenheiro Paul Werner, no bairro Itoupava Seca, em Blumenau.
A relação da Altona com a industrialização de Blumenau
A trajetória da Altona não pode ser analisada apenas como uma história empresarial. Seu crescimento ocorreu paralelamente à transformação de Blumenau em um centro industrial.
Durante grande parte do século XX, as empresas têxteis dominaram a identidade econômica da cidade. Entretanto, setores como metalurgia, mecânica, equipamentos industriais, tecnologia e serviços especializados também ganharam relevância.
A Altona tornou-se uma das referências desse processo de diversificação. A companhia ajudou a desenvolver mão de obra industrial, movimentou fornecedores, estimulou serviços técnicos e abriu oportunidades para diferentes gerações de trabalhadores.
A presença da fábrica também influenciou o desenvolvimento urbano da Itoupava Seca. Residências, estabelecimentos comerciais, vias e serviços cresceram ao redor do complexo industrial.
A própria Rua Engenheiro Paul Werner, endereço da empresa, preserva no espaço urbano o nome de um dos fundadores.
A Altona e as grandes enchentes de Blumenau
Manter uma indústria centenária em Blumenau também significou enfrentar alguns dos maiores desastres naturais registrados na cidade.
Ao longo das décadas, enchentes interromperam transportes, atingiram empresas, danificaram equipamentos e afetaram milhares de trabalhadores. Os eventos de 1983 e 1984 marcaram profundamente o setor industrial blumenauense.
Empresas instaladas próximas ao Rio Itajaí-Açu e seus afluentes precisaram desenvolver estratégias de prevenção, recuperação e continuidade operacional.
Além das enchentes, a Altona atravessou períodos de guerra, mudanças políticas, recessões, crises cambiais, abertura econômica e transformações tecnológicas que alteraram profundamente a indústria brasileira.
A permanência da companhia durante mais de um século demonstra a capacidade de adaptação e reconstrução do ambiente empresarial de Blumenau.
Uma empresa presente no mercado de capitais
Outro aspecto importante da trajetória da companhia é sua presença no mercado de capitais.
As ações da Electro Aço Altona são negociadas na Bolsa de Valores brasileira pelos códigos EALT3 e EALT4.
A condição de companhia aberta exige a divulgação periódica de resultados financeiros, demonstrações contábeis, informações relevantes e documentos de governança por meio do portal de Relações com Investidores da Altona.
Essa estrutura diferencia a Altona de muitas empresas familiares e indústrias tradicionais da região. Ao mesmo tempo, a companhia mantém sua história ligada à família fundadora e à comunidade empresarial de Blumenau.
Sustentabilidade e controle ambiental
A produção metalúrgica envolve consumo intensivo de energia, manipulação de materiais, geração de resíduos e processos térmicos de grande escala. Por essa razão, a gestão ambiental tornou-se estratégica para as indústrias do setor.
A Altona mantém iniciativas relacionadas à gestão ambiental, ao monitoramento de emissões e à divulgação de informações sobre sustentabilidade.
Entre os reconhecimentos apresentados pela empresa está o Selo Ouro do Programa Brasileiro GHG Protocol, concedido a organizações que elaboram inventários completos de emissões de gases de efeito estufa e os submetem à verificação independente.
A companhia também disponibiliza documentos corporativos e relatórios por meio de seu portal de Relações com Investidores.
Tradição não significa permanecer parada no tempo
Chegar aos 100 anos não significa apenas preservar uma história. Para continuar competitiva, uma indústria precisa atualizar máquinas, sistemas, processos de engenharia e modelos de gestão.
Tecnologias de modelagem tridimensional, simulações, automação, controle de qualidade, rastreabilidade e análise de dados ampliaram a precisão dos processos metalúrgicos.
Mesmo com a evolução tecnológica, a produção continua dependendo de conhecimento humano altamente especializado.
Metalurgistas, engenheiros, soldadores, modeladores, operadores, inspetores e profissionais de usinagem participam da fabricação de componentes que podem levar meses para serem concluídos.
O crescimento da empresa também ocorreu por meio da abertura de subsidiárias e estruturas de atendimento em regiões estratégicas, fortalecendo sua presença em mercados internacionais.
O que significa uma indústria de Blumenau completar 100 anos?
No Brasil, poucas empresas conseguem ultrapassar um século de atividade mantendo operações industriais de grande porte.
Chegar aos 100 anos exige atravessar mudanças de moeda, regimes políticos, crises econômicas, alterações trabalhistas, transformações tecnológicas e ciclos de expansão e retração do mercado.
No caso da Altona, o centenário representa também a permanência de uma atividade industrial pesada dentro de uma cidade que passou por intensa urbanização.
A fábrica que começou produzindo panelas, balanças e ferramentas tornou-se fornecedora de setores estratégicos da economia mundial.
O que nasceu como uma pequena oficina de bairro passou a produzir componentes que trabalham silenciosamente dentro de locomotivas, turbinas, minas, navios, usinas e grandes equipamentos.
Curiosidades sobre a Electro Aço Altona
De onde veio o nome Altona?
O nome está relacionado ao antigo bairro Altona, onde a empresa iniciou suas atividades. Atualmente, a região integra o bairro Itoupava Seca.
Quando a empresa foi fundada?
A fundação oficial ocorreu em 8 de março de 1924.
Qual era o nome original?
A companhia nasceu como Auerbach & Werner, utilizando os sobrenomes de seus fundadores, Ernst Auerbach e Paul Werner.
O que a empresa produzia no início?
A oficina fabricava panelas, balanças, sinos, moedores, ferramentas, implementos agrícolas e peças utilizadas em motores e equipamentos.
Quando surgiu o nome Electro Aço Altona?
A denominação foi adotada em 1933, quando a empresa ampliou sua atuação na fundição de aço.
Qual foi sua importância para a indústria catarinense?
A companhia tornou-se a primeira fundição de aço de Santa Catarina e uma das primeiras empresas do segmento no Brasil.
Onde fica a fábrica?
O parque fabril está localizado na Rua Engenheiro Paul Werner, nº 925, no bairro Itoupava Seca, em Blumenau.
Uma história moldada em aço
A história da Electro Aço Altona demonstra como conhecimento técnico, empreendedorismo e capacidade de adaptação contribuíram para transformar Blumenau em uma cidade industrial.
O empreendimento iniciado por Paul Werner e Ernst Auerbach atravessou gerações e acompanhou a evolução da metalurgia brasileira.
Suas peças deixaram de atender apenas agricultores e moradores da região para integrar equipamentos utilizados em diferentes partes do mundo.
Mais de um século depois, a antiga oficina continua operando no mesmo território onde iniciou sua trajetória. Ao redor dela, o bairro mudou, a cidade cresceu e a indústria se tornou global.
A Altona permanece como uma espécie de monumento industrial vivo de Blumenau: não apenas por seus prédios, máquinas ou produtos, mas pelas milhares de pessoas que ajudaram a moldar sua história.
Referências
Crédito da foto: Divulgação / Electro Aço Altona


