Notícias Coluna · Ponto de Vista

Não foi brincadeira. Foi a monetização do constrangimento

O vídeo gravado em um drive-thru de Blumenau não revela apenas uma brincadeira de mau gosto. Ele expõe uma cultura digital que transforma trabalhadores em figurantes involuntários e chama de “mimimi” qualquer tentativa de impor limites.

Não foi brincadeira. Foi a monetização do constrangimento
Foto: Divulgação

PONTO DE VISTA é a coluna de opinião de Anderson Cardoso, editor-chefe do Blumenau Hub. Os textos apresentam análises, interpretações e posicionamentos pessoais sobre Blumenau, negócios, cultura e comportamento.

Quando a diversão depende do constrangimento alheio

Existe uma regra bastante simples para identificar se determinada atitude foi realmente uma brincadeira: todos os envolvidos deveriam poder rir quando ela termina.

Quando apenas quem segura a câmera se diverte, enquanto a outra pessoa é exposta diante de milhares de desconhecidos, talvez não estejamos falando de humor. Talvez estejamos apenas usando uma palavra simpática para disfarçar uma atitude desagradável.

Nos últimos dias, um vídeo gravado em um drive-thru de Blumenau provocou forte repercussão nas redes sociais. Na gravação, uma influenciadora recebe uma casquinha de sorvete, passa os dedos no alimento, leva-os à boca e depois devolve o produto para a funcionária que realizava o atendimento.

A trabalhadora aparece uniformizada, com o rosto visível e, segundo as informações divulgadas, sem ter autorizado o uso de sua imagem.

Depois da repercussão, a funcionária registrou um boletim de ocorrência. A Polícia Civil instaurou um procedimento por meio de Termo Circunstanciado e, conforme declarou o delegado Ronnie Esteves, da 1ª Delegacia de Polícia de Blumenau, a apuração inicial considera uma possível injúria. O caso permanece sob investigação, portanto não cabe antecipar culpa ou condenação.

Esses são os fatos conhecidos. Agora vem a parte que realmente precisamos discutir.

O problema não é apenas o vídeo

Seria fácil reduzir tudo a mais uma polêmica passageira da internet. Alguém publica algo questionável, as redes se revoltam, o perfil é fechado e, poucos dias depois, aparece um novo escândalo para alimentar o tribunal digital.

Mas o episódio revela algo maior: a normalização da ideia de que qualquer pessoa pode ser transformada em conteúdo, desde que isso gere visualizações.

A funcionária estava trabalhando. Não estava participando de um quadro de humor, de uma pegadinha previamente combinada ou de uma produção publicitária. Ela estava cumprindo uma função profissional quando foi colocada diante de uma câmera e apresentada a uma audiência que, segundo a reportagem, ultrapassava meio milhão de seguidores.

De um lado, alguém controlava a câmera, a edição, a publicação e a narrativa. Do outro, uma trabalhadora que sequer sabia que sua imagem poderia circular por todo o país.

Isso não é uma relação equilibrada. É uma enorme assimetria de poder disfarçada de espontaneidade.

“Hoje não pode mais nada”

Após receber críticas, a influenciadora teria classificado a reação do público como “mimimi” e lamentado que, antigamente, as pessoas podiam brincar e falar livremente.

Esse argumento aparece sempre que alguém descobre, com certo atraso, que liberdade de expressão não significa imunidade às consequências.

É curioso como algumas pessoas defendem o próprio direito de publicar qualquer coisa, mas se incomodam profundamente quando o público também exerce o direito de reagir. A liberdade, nesse raciocínio, funciona muito bem na ida. O problema começa quando ela resolve voltar.

Dizer que “antigamente podia tudo” também não fortalece a defesa. Apenas revela que comportamentos inadequados já foram tolerados por mais tempo do que deveriam.

O mundo não ficou necessariamente mais sensível. As pessoas que antes precisavam engolir o constrangimento em silêncio ganharam meios para responder. Para quem sempre teve o microfone, isso pode realmente parecer uma terrível perda de liberdade.

A indústria da humilhação disfarçada de entretenimento

A economia da atenção criou uma geração de produtores de conteúdo pressionados a transformar qualquer situação cotidiana em espetáculo.

Quanto mais absurda a cena, maior a chance de retenção. Quanto mais indignação, mais comentários. Quanto mais conflito, mais compartilhamentos. Nesse ambiente, o limite ético começa a ser tratado como obstáculo criativo.

O problema é que alguém sempre paga a conta desse entretenimento.

Às vezes, é o garçom provocado durante o expediente. Em outros casos, é o atendente exposto diante de uma fila. Pode ser o entregador filmado sem consentimento, a funcionária colocada em uma situação desconfortável ou uma pessoa comum convertida em personagem de uma história que não escolheu viver.

O trabalhador vira cenário. O constrangimento vira roteiro. A repercussão vira alcance. E o alcance, direta ou indiretamente, pode virar dinheiro.

Não estamos apenas diante da banalização da humilhação. Estamos diante de sua monetização.

Blumenau também precisa discutir sua cultura digital

O fato de o episódio ter acontecido em Blumenau nos obriga a olhar além da indignação momentânea.

Gostamos de apresentar a cidade como organizada, desenvolvida, trabalhadora e empreendedora. E há razões legítimas para esse orgulho. Porém, reputação não é um salvo-conduto coletivo contra comportamentos ruins.

Uma cidade não demonstra maturidade apenas por aquilo que constrói, produz ou vende. Ela também se revela pela maneira como trata quem está atrás de um balcão, dentro de uma fábrica, conduzindo uma entrega ou atendendo o público.

O respeito não pode depender do cargo, do número de seguidores ou da capacidade de alguém provocar uma crise de imagem.

Aliás, existe uma boa pergunta para qualquer pessoa que produz conteúdo: você faria a mesma brincadeira se a pessoa diante da câmera tivesse mais poder, dinheiro e influência do que você?

Se a resposta for não, talvez nunca tenha sido humor. Talvez tenha sido apenas a escolha cuidadosa de um alvo que parecia não ter como reagir.

A reação pública também precisa ter limites

Criticar a conduta mostrada no vídeo é legítimo. Exigir responsabilidade também. Transformar a autora em alvo de ameaças, perseguição ou violência virtual, entretanto, apenas reproduz o mesmo problema em outra escala.

Não precisamos combater uma exposição indevida promovendo outra. Não precisamos responder ao constrangimento com linchamento digital. Tampouco cabe substituir uma investigação oficial por sentenças improvisadas nos comentários.

Responsabilização não é vingança.

É possível condenar uma atitude sem desumanizar quem a praticou. Essa distinção parece óbvia, mas a internet possui uma habilidade impressionante para transformar qualquer debate moral em competição para descobrir quem consegue ser mais cruel.

A Polícia Civil deve apurar os fatos. As pessoas envolvidas devem ter direito de se manifestar. E a sociedade pode aproveitar o episódio para discutir os limites entre humor, consentimento, exposição e responsabilidade.

Meu ponto de vista

Para mim, o maior erro desse episódio não começa no sorvete. Começa na ideia de que possuir uma câmera e uma audiência transforma qualquer pessoa ao redor em matéria-prima para conteúdo.

Não transforma.

Funcionários não são figurantes gratuitos. Pessoas comuns não são objetos cenográficos. E alguém estar em um espaço público ou atendendo clientes não significa que tenha renunciado ao direito de preservar a própria imagem e dignidade.

Também não compro a tese de que tudo agora virou “mimimi”. Essa palavra se tornou um guarda-chuva conveniente para quem deseja fugir de qualquer reflexão. Basta alguém apontar um limite e imediatamente surge o discurso de que o mundo ficou chato.

Talvez o mundo não tenha ficado chato.

Talvez uma parte do conteúdo tenha ficado preguiçosa, apelativa e dependente demais do desconforto dos outros.

Criatividade de verdade não precisa escolher alguém com menos poder para fabricar uma cena. Humor inteligente não depende de humilhação. E influência sem responsabilidade é apenas irresponsabilidade com boa iluminação, edição rápida e muitos seguidores.

A reflexão que fica

A pergunta mais importante não é se a influenciadora teve ou não intenção de humilhar. Intenção será sempre uma discussão subjetiva, e o caso deverá ser esclarecido pelas autoridades competentes.

A pergunta que deveria permanecer é outra:

Em que momento decidimos que a nossa necessidade de aparecer vale mais do que o direito do outro de não participar?

Quando a busca por atenção transforma trabalhadores em personagens involuntários, não estamos apenas produzindo conteúdo ruim. Estamos ensinando que alcance vale mais do que respeito.

E, se esse é o preço da influência, talvez esteja na hora de admitir que algumas pessoas não precisam de mais seguidores.

Precisam de mais limites.


Compartilhar