Blumenau parece viver uma relação complicada com os próprios moradores. Reclamamos do trânsito, do clima, dos preços e da falta do que fazer. Entretanto, quando surge a possibilidade de partir, descobrimos que a cidade talvez seja muito melhor do que gostamos de admitir.
PONTO DE VISTA é a coluna de opinião de Anderson Cardoso, editor-chefe do Blumenau Hub. Os textos apresentam análises, interpretações e posicionamentos pessoais sobre Blumenau, negócios, cultura e comportamento.
Blumenau é ruim — até você tentar ir embora
Existe um comportamento curioso entre os moradores de Blumenau. Basta iniciar uma conversa sobre a cidade para surgir uma lista bastante eficiente de reclamações. O trânsito está pior. O aluguel está caro. O verão é uma sauna com CEP. O inverno, quando decide aparecer, dura aproximadamente três cafés. Não há nada para fazer. Tudo fecha cedo. A cidade cresce sem planejamento. As pessoas são fechadas. Os eventos se repetem e, aparentemente, qualquer deslocamento exige atravessar a Rua 7 de Setembro.
O blumenauense reclama com convicção. Em alguns casos, reclama com método, memória histórica e exemplos organizados por bairro.
Mas experimente sugerir que ele vá embora.
De repente, Blumenau deixa de ser aquela cidade insuportável descrita cinco minutos antes e passa a ter boa infraestrutura, segurança, oportunidades, natureza, qualidade de vida, tradição, gastronomia e localização estratégica. O mesmo cidadão que reclamava da cidade agora apresenta uma defesa digna de campanha institucional.
Foi tentando compreender essa contradição que cheguei ao que chamo de Efeito Blumenau: a tendência de criticar diariamente a cidade enquanto se desenvolve por ela um vínculo tão profundo que partir parece sempre uma solução pior.
Reclamar também é uma forma estranha de pertencimento
Talvez a primeira explicação seja bastante simples: nós reclamamos mais daquilo com que nos importamos.
Ninguém perde tempo criticando um lugar completamente irrelevante para a própria vida. A reclamação recorrente nasce da expectativa. Queremos que Blumenau funcione porque acreditamos que ela pode funcionar melhor. Criticamos o trânsito porque sabemos que a cidade já foi mais fácil de atravessar. Questionamos o crescimento porque não queremos perder a qualidade de vida que nos fez permanecer aqui.
Há, portanto, uma diferença entre rejeitar uma cidade e se frustrar com ela.
Blumenau provoca frustração justamente porque entrega o suficiente para elevar as expectativas. É organizada, mas poderia planejar melhor. É próspera, mas ainda desperdiça oportunidades. Possui vida cultural, mas nem sempre sabe comunicá-la. Tem bons negócios, porém muitos continuam invisíveis. Reúne pessoas interessantes, mas parece ter desenvolvido um pacto coletivo para que elas nunca se encontrem.
A cidade não é ruim. Ela apenas vive perigosamente próxima daquilo que poderia ser.
E poucas coisas incomodam tanto quanto enxergar potencial sendo usado pela metade.
“Blumenau não tem nada para fazer”
Essa talvez seja a frase mais repetida por quem vive na cidade. Também é uma das mais convenientes.
Não nego que Blumenau tenha limitações. Faltam experiências culturais mais diversas, atividades noturnas fora dos circuitos tradicionais, ocupação inteligente dos espaços públicos e uma agenda urbana mais conectada com diferentes gerações. A crítica possui fundamento.
Entretanto, existe uma pequena diferença entre afirmar que uma cidade não oferece nada e admitir que não sabemos o que ela oferece.
Blumenau recebe feiras, exposições, peças, encontros empresariais, eventos gastronômicos, atividades esportivas, shows, palestras e experiências comunitárias. Muitas acontecem simultaneamente e, ainda assim, parte da população só descobre quando vê as fotografias publicadas na segunda-feira.
Não é apenas um problema de oferta. É também um problema de divulgação, descoberta e hábito.
A cidade possui uma agenda fragmentada. Cada evento fala com a própria bolha, cada comunidade distribui informação dentro do próprio círculo e cada organizador parece confiar que o algoritmo fará o trabalho de comunicação por caridade.
Depois, todos concluem que Blumenau não tem nada acontecendo.
Talvez Blumenau não seja exatamente uma cidade sem opções. Talvez seja uma cidade com muitas coisas acontecendo em silêncio.
A síndrome da comparação conveniente
Também temos o hábito de comparar Blumenau com cidades maiores apenas nos aspectos em que elas vencem.
Queremos a vida cultural de São Paulo, as praias de Florianópolis, a mobilidade de uma cidade europeia, os salários de um polo internacional e a tranquilidade de uma cidade do interior. Tudo isso, evidentemente, sem trânsito, violência, filas, aluguel caro, excesso de turistas ou qualquer outra consequência de uma cidade movimentada.
É uma expectativa bastante modesta. Quase um pedido administrativo.
Comparamos a noite de Blumenau com a de uma metrópole, mas raramente comparamos o tempo gasto no trânsito. Admiramos a quantidade de eventos dos grandes centros, mas ignoramos o custo de vida, a insegurança e a distância necessária para chegar até eles. Desejamos mais movimento, desde que esse movimento não estacione na nossa rua.
O problema não está em buscar referências melhores. Blumenau precisa olhar para fora, aprender e evoluir. O problema começa quando a comparação deixa de servir como ferramenta de desenvolvimento e passa a ser apenas um método sofisticado de insatisfação.
Toda cidade parece perfeita quando selecionamos apenas suas vantagens e exportamos os problemas para fora da fotografia.
O conforto que não aparece no Instagram
Há outra razão para o Efeito Blumenau: parte do valor da cidade está naquilo que deixamos de perceber porque se tornou cotidiano.
É a proximidade entre os bairros. A presença da natureza. A possibilidade de construir relações profissionais recorrentes. A força das empresas locais. A sensação de familiaridade. A capacidade de encontrar diferentes serviços sem precisar reorganizar a vida inteira para atravessar a cidade.
Nada disso rende necessariamente um vídeo espetacular.
Qualidade de vida, na maior parte do tempo, não é cinematográfica. Ela aparece na rotina funcionando, na rede de confiança construída ao longo dos anos, no caminho conhecido, no comércio que reconhece o cliente e nas relações que facilitam a vida sem que percebamos.
O problema do conforto é que ele se torna invisível enquanto permanece disponível. Só reconhecemos seu valor quando o perdemos.
Talvez por isso tantas pessoas saiam de Blumenau procurando movimento, novidade e possibilidades, mas comecem a sentir falta justamente daquilo que antes chamavam de monotonia. A previsibilidade que parecia entediante passa a ser tranquilidade. A cidade “pequena demais” começa a parecer humana. E aquele ritmo que incomodava se transforma em algo raro: uma vida que ainda cabe dentro do dia.
Blumenau também sabe prender as pessoas
Seria romântico demais afirmar que todo mundo permanece apenas por amor à cidade. Há quem fique por causa da família, do trabalho, dos negócios, dos imóveis, das relações construídas ou simplesmente porque recomeçar em outro lugar custa caro.
Blumenau também cria raízes profundas. Quanto mais tempo alguém permanece, maior se torna a rede de contatos, clientes, amigos, referências e hábitos. Ir embora não significa somente trocar de endereço. Significa abandonar um capital social desenvolvido durante anos.
Para quem empreende, isso é ainda mais evidente. Blumenau possui um ecossistema econômico forte, empresas tradicionais, cooperativas, indústrias, comércio ativo e uma cultura que valoriza o trabalho. A cidade pode ser conservadora em determinados aspectos, mas também oferece estabilidade e relações comerciais duradouras.
O blumenauense talvez não seja a pessoa mais expansiva no primeiro encontro. No décimo segundo, quem sabe, ele considere responder à mensagem com mais de três palavras. Contudo, quando a confiança é construída, as relações costumam ganhar consistência.
Sair significa começar tudo novamente. E o desconhecido sempre parece mais sedutor quando não exige mudança, adaptação ou pagamento de caução.
A cidade fechada que reclama da falta de conexão
Blumenau também guarda outra contradição: reclama que não há conexão enquanto preserva círculos sociais quase impermeáveis.
Temos networking demais e encontro de menos. Muitos cartões, poucos vínculos. Muitos grupos, poucas pontes. Muitas pessoas interessantes vivendo a poucos quilômetros umas das outras sem jamais dividir a mesma mesa.
A cidade ainda carrega uma cultura reservada. Quem chega de fora percebe rapidamente que a integração nem sempre acontece com facilidade. Existem grupos formados há anos, relações familiares, círculos profissionais e códigos sociais que não vêm acompanhados de manual de instruções.
Depois, reclamamos que Blumenau é fechada como se a cidade fosse uma entidade abstrata responsável por organizar nossos encontros.
Mas uma cidade é construída pelo comportamento de seus moradores. Se queremos uma Blumenau mais aberta, criativa e conectada, precisaremos abandonar a confortável posição de espectadores insatisfeitos. Não dá para criticar as portas fechadas enquanto mantemos a nossa cuidadosamente trancada.
Meu ponto de vista
Eu gosto de Blumenau justamente porque não consigo enxergá-la de forma ingênua.
Vejo uma cidade forte, mas excessivamente satisfeita com alguns títulos. Uma cidade empreendedora que ainda precisa aprender a comunicar melhor seus próprios negócios. Uma cidade culturalmente rica que, muitas vezes, resume a própria identidade ao que já foi consagrado. Uma cidade que cresce rapidamente, mas nem sempre parece disposta a discutir que tipo de crescimento deseja.
Blumenau possui qualidades reais. Também possui problemas evidentes. Uma coisa não anula a outra.
O Efeito Blumenau nasce desse conflito: a cidade nos oferece o suficiente para não querermos partir, mas também nos mostra diariamente tudo aquilo que ainda poderia entregar.
Por isso reclamamos. Não necessariamente porque odiamos Blumenau, mas porque desenvolvemos com ela uma intimidade que nos permite identificar cada defeito. É como aquela relação antiga em que uma pessoa conhece exatamente os hábitos irritantes da outra, reclama de todos eles e, ainda assim, estranha profundamente quando ela não está por perto.
Blumenau é a cidade que muitos adoram criticar porque, no fundo, já decidiram que ela lhes pertence.
A reflexão que fica
Talvez a pergunta não seja por que tanta gente reclama de Blumenau e continua aqui.
A pergunta mais honesta seria: o que esta cidade oferece que nós só percebemos quando imaginamos perdê-la?
É fácil tratar permanência como acomodação. Entretanto, ficar também pode ser uma escolha. Pode significar reconhecer que nenhuma cidade virá pronta, perfeita e cuidadosamente adaptada às nossas preferências.
Blumenau não precisa que seus moradores finjam que tudo está ótimo. Precisa de pessoas que transformem a insatisfação em participação, a crítica em proposta e o sentimento de pertencimento em alguma forma concreta de contribuição.
Reclamar da cidade pode ser um sinal de amor.
Mas amor que apenas reclama, não participa e espera que os outros resolvam tudo começa a parecer menos exigência e mais comodismo.
No fim, o Efeito Blumenau talvez seja isso: passamos tanto tempo apontando o que falta que esquecemos de reconhecer por que, apesar de tudo, ainda escolhemos ficar.
E antes que alguém diga novamente que Blumenau não tem nada, talvez seja interessante conferir a agenda da cidade.
Ou, em uma atitude mais ousada, sair de casa.